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Dia das mulheres, para mulheres, sobre mulheres por mulheres

National Womens Day

National Womens Day

Não é de hoje que eu estou envolvido em debates, reflexões e ações acerca da temática da mulher em nossa sociedade. Seus desafios, os preconceitos, o tratamento desigual, a violência – seja ela física ou psicológica.

Mas acho que eu nunca havia vivido um dia tão intenso quanto foi este 8 de março de 2014.

A começar que sempre fico confuso se considero 8 de março um dia de homenagem (seja lá a quem for), um dia de reflexão, um dia de lutas, enfim, não sei bem como definir este dia. E por isso mesmo sempre fico me perguntando: “Dou parabéns às mulheres hoje?”. Como é meu costume, não sou uma pessoa de sair dando parabéns, em geral prefiro dedicar minha presença e atenção a um “simples parabéns”, e ontem acabei trazendo essa característica à tona. Não dei um “feliz dia da mulher”, mas dediquei meu dia todo “a elas” (ou vocês).

Eu e a Haydée decidimos por participar das atividades da Casa de Lua (para saber mais visite o site – e eu recomendo a visita ao site e à casa!).

Lugar de mulher é na Política

Lugar de mulher é na Política

As atividades começaram com um debate sobre Mulheres e Política, com apresentações da Juliana Cardoso (vereadora em SP pelo PT) e sua mãe, a batalhadora Ana Maria Cardoso, da Haydée Svab (PoliGen/Casa de lua) e da Georgia Nicolau (Diretora da Secretaria de Economia Criativa do Ministério da Cultura). O debate foi muito inspirador, cada uma à sua maneira construindo a Política e o País, sempre muito apegadas à construção coletiva, ao respeito ao próximo e sempre levando a temática da mulher – seja em projetos ou simplesmente na forma de ser, agir e construir. Foi muito enriquecedor, e tenho certeza que se houvesse tempo passaríamos ainda muitas e muitas horas naquela conversa. Eu e certamente muitas outras pessoas presentes ficaram com vontade de fazer várias perguntas e provocações.

Respeito ao parto é respeito à mulher

Respeito ao parto é respeito à mulher

Um pouco atrelado a este debate também acabamos agregando uma outra mesa que estava rolando em paralelo, que era sobre “Violência obstétrica e os direitos das mulheres no cenário do parto e do nascimento“, com a doula Marcelly Ribeiro e a advogada Ana Lucia Keunecke. Nunca havia participado de qualquer debate sobre esta temática, apesar de já ter ouvido falar, bem por cima, sobre parto humanizado. Fiquei chocado com muitas das coisas que ouvi, e acho que este é um tema que precisa ainda de muita exposição. O grau de intervencionismo da medicina atual e o desrespeito à individualidade, à pessoalidade e até à humanidade das mulheres chega a assustar. Isso sem falar no quanto a medicina ocidental atual trabalha para desacreditar na capacidade natural do corpo, sempre utilizando um discurso “do medo” para forçar a intervenção médica (seja com medicamentos, suplementos ou cirurgias). A influência do dinheiro da indústria farmacêutica e de alimentos também impressiona, o uso indiscriminado do “Leite NAN” (da Nestlè, uma das maiores patrocinadoras da área pediátrica) é completamente desmedido. Desta conversa fica a sugestão para o filme/documentário “O Renascimento do Parto”, que a Casa de Lua vai exibir em breve, e pretendemos exibir também no “Cineclube Hacker“, além da reflexão de que a humanidade chegou até aqui sem todo esse intervencionismo, minha avó paterna deu a luz a 10 crianças e minha avó materna a mais 6, tudo sem os “super recursos” como leite NAN, Cesariana, episiotomia e “ponto do marido” (fiquei muito chocado com isso!), e por ai vai.

Depois dessa conversa fiquei para o debate sobre “Trote machista e feminismo na Universidade“, com as meninas dos coletivos Frente Feminista Casperiana Lisandra, Coletivo Chute da ESPM, Coletivo 3 Rosas, da PUC, Frente Feminista da ECA-USP, Frente Perspectiva, do Mackenzie e eu, que participo do PoliGen. É quase difícil acreditar no grau de violência nas atividades das universidades (públicas e privadas) aqui na cidade de São Paulo, não só por estudantes (homens e mulheres), mas também por parte de alguns docentes – alguns ativamente discriminando e violentando as meninas, outros por omissão. Isso sem falar na omissão das instituições, que deveriam ter como seu principal objetivo educar e formar cidadãos e cidadãs, indo muito além de uma formação técnica conteudista.
Na Poli esse tipo de violência contra mulheres é absolutamente comum, dentro e fora de aula, advinda de estudantes e professores, com comentários jocosos, desmerecedores, piadas sexistas, além dos eventos super opressivos [1] e [2]. E sempre tivemos a impressão de que pelo fato de a maioria dos estudantes e docentes serem homens isso tudo era agravado. Ontem, ouvindo as meninas comentarem de seus cursos e faculdades nas quais as mulheres são maioria, pude perceber que o problema é muito maior, que existe de fato uma “cultura universitária” de opressão, calcada na imposta e desumanizante hierarquia “bixo – veterano”. Mas também pude perceber o quanto a maioria masculina de meu curso gera situações limítrofes de violência física (como a prova da metralhadora de elástico [2]).

Veterano não é dono de caloura

Veterano não é dono de caloura

E de comum em todos os cursos e universidades está o descaso das instituições para com a temática, só havendo uma mínima e performática movimentação institucional quando os acontecimentos chegam à imprensa e a instituições como o Ministério Público (que, diga-se de passagem, só atuou no caso da Cásper desse ano).
Não posso deixar de relatar ainda que fiquei quase deprimido ao ouvir que numa festa da Faculdade Getúlio Vargas uma aluna – alcoolizada – foi violentada (masturbada) publicamente em cima do palco do evento (que não lembro qual era).
Mas ao mesmo tempo fiquei muito feliz em ouvir que nas faculdades e universidades do Nordeste não existe essa cultura de trote e violência – não que não ocorram problemas, mas nada nos níveis que vemos por aqui, pelo que foi dito.
Dentro ainda deste debate acho que vale destacar que o Poligen é um dos grupos com mais tempo de existência. Não sei o quão isso é bom ou ruim, mas acho que é algo relevante de se refletir sobre.
Por fim, a Bianca Santana (professora da Cásper e moderadora da mesa pela Casa de Lua) fez algumas provocações muito relevantes: “O fato dos grupos causarem incômodo ‘geral’ é bom ou ruim?”; “Existe uma grande cisão entre quem participa dos coletivos e quem não participa, como fazer para criar pontes entre esses dois lados tão distantes?”. Teve uma outra mas não me recordo agora qual foi. E eu adicionei mais uma provocação. Devemos sempre tomar muito cuidado para não tratar a todas as pessoas como inimigas, nem tratar a todas as pessoas como “machistas convictas” – como alguns são de fato – nesse sentido, a quem deve ser direcionado o esforço e a atenção? Aos “extremistas” da cultura da opressão ou às pessoas que simplesmente estão tentando “fazer parte do grupo social”, mesmo que de forma inconsciente?

Depois tivemos uma conversa mais curta com a pesquisadora Maria Lucia da Silveira, que contou um pouco sobre a história do 8 de março, quebrou alguns mitos (como o das trabalhadoras queimadas numa fábrica em 1857) e falou um pouco sobre como o movimento feminista tiveram origem em diversos lugares, mas o mais forte deles foi na Rússia. Vale ler o artigo na Wikipédia.

Por fim rolou a conversa “Cuidados autonômos dos nossos corpos, poder médico e a indústria da doença“, com a Bianca Santana, a Bruna Silveira e a Joana Duah. E essa foi a atividade que mais me tocou e me fez refletir de todo o dia. Muito se falou sobre as violências médicas, principalmente contras as mulheres, a cultura do medo da medicina, a culpabilização da mãe, a medicina focada na doença ao invés de olhar para a saúde e para o paciente como um todo. Foi uma conversa muito intensa, e acho que duas coisas me tocaram muito forte. A primeira delas foi um link que fiz entre as diversas atividades, que é a questão da linguagem, me lembrando de uma frase do Nelson Mandela:

“If you talk to a man in a language he understands, that goes to his head.

If you talk to him in his own language, that goes to his heart.”

Em cima disso, fiquei pensando o quanto precisamos, por um lado, aprender e sempre tentar falar numa língua que as pessoas entendam, e isso não quer dizer idioma, mas de fato conversar com as pessoas levando em consideração a realidade delas. Por outro lado, trazendo da primeira conversa, precisamos também nos apropriar do discurso daqueles com quem temos que lidar, sejam eles burocratas, médicos, políticos, técnicos, etc. Dessa forma conseguimos sobrepujar o discurso de autoridade e debater o que de fato importa.

Autonomia

Autonomia

E a segunda coisa que mais me tocou nesta última conversa, foi o quanto as mulheres estão anos luz à frente dos homens quando o assunto é saúde, cuidado, se conhecer e se respeitar. Enquanto as mulheres estão debatendo sobre como se conhecer melhor para o autocuidado e para não precisar tanto da “medicina da doença” e se defender de abusos médicos, nós homens sequer falamos sobre nossa saúde e sobre cuidar e conhecer nossos corpos. Temos muito ainda o que caminhar, e acho que talvez essa seja uma grande lição deste dia 8. Se nós, homens, pararmos para observar mais as mulheres, talvez passemos a nos cuidar melhor e também a respeitá-las muito mais.

Mulheres da casa de lua e as que lá estiveram ontem, obrigado pelo dia maravilhoso de ontem, e por todos os outros dias. Mulheres da Casa de Lua, vocês são um grande exemplo e inspiração que vocês sempre são.

E deixo aqui também a minha lembrança às duas mulheres fundamentais em minha vida, minha mãe e minha companheira Haydée. Vocês são meu suporte e minha inspiração!

[1] Nota do Grupo de Estudo de Gênero do PoliGNU sobre a “Barraca do Tapa” da Festa Junina da Poli

[2] Um tapa na cara da igualdade

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