Reforma Política e Mamilos

Contexto: Comentário que escrevi após ouvir o Podcast Mamilos#27 sobre Reforma Política (Recomendadíssimo!).

Tentando contribuir com alguns pontos.

Vou começar com a questão “Doar para Partido” x “Doar para candidato(a)s”. Acho que esse ponto fica polêmico quando assumimos doações empresariais e sem limite de valores. Não vejo ninguém questionar pessoas físicas doando para partidos, seja dentro ou fora dos períodos de campanha (quando não existem candidatos).
Eu pessoalmente acho péssima a possibilidade de empresas doarem rios de dinheiro aos partidos. A eleição de 2014 foi a primeira eleição que tivemos um trabalho minimamente razoável de prestação de contas das campanhas eleitorais, até então era impossível fazer qualquer auditoria nas contas de campanha. E grande parte dessa impossibilidade era advinda do fato de que havia o fenômeno das “doações ocultas”, ou seja, o dinheiro era erado para o partido ou para comitês partidários (p.ex. “Comitê Financeiro Único” do PMDB-SP), e esses faziam a redistribuição dos recursos aos candidatos, ocultando a “origem” do dinheiro.
Em 2014 todas as doações, mesmo que passando por partido/comitê deveriam ter sua origem identificada. Isso permitiu fazer o tracking do dinheiro, apesar de ainda haver alguma dificuldade. Com isso foi possível, pela primeira vez, fazer trabalhos como:
http://estadaodados.com/padrinhos/
http://estadaodados.com/eles_elegem/
http://estadaodados.com/doacoes2014/

Eu participei dos 3 projetos, então sei o quão difícil foi fazer o tracking do dinheiro.

Mas no fim das contas eu acho que do ponto de vista de financiamento de campanha o grande problema, e o que gera grande parte do personalismo que observamos na política partidária eleitoral, é o fato de que os partidos distribuem os recursos de forma completamente desproporcional entre seus candidatos. Se a ideia é fortalecer os partidos, poderíamos realizar mudanças que reduzissem as disparidades dos(as) candidato(as) em termos financeiros e de tempo de tv. Isso inclusive desencorajaria as grandes empresas a doarem tanto quanto doam, porque o dinheiro delas seria distribuído de uma maneira que reduziria muito o poder de pressão e influência sobre uma única pessoa.

Outra questão que poderia contribuir seria limitar os gastos de campanha. Olhando do ponto de vista sistêmico, se o objetivo da campanha é fazer com que a sociedade debata e conheça as candidaturas (e não candidato(a)s), então me parece fazer sentido promover uma distribuição mais equitativa de tempo e dinheiro entre as candidaturas. Não precisa ser necessariamente igual para todo mundo, mas me parece razoável que haja uma equidade maior.

Isso inclusive poderia fazer com que os partidos tomassem mais cuidado na escolha de candidato(a)s. Claro que existem ônus também, visto que isso provavelmente dificulta a inserção de pessoas com menor expressão pública dentro dos grandes partidos.

Agora pontuando uma questão mais focada no financiamento empresarial de campanha, acho que precisamos pensar “no que queremos”. É comum ouvirmos o discurso de que “as empresas fazem parte do país, qual o problema delas defenderem os interesses delas?”.
Assumindo que é válida a tese de que as empresas tem o “direito” (desde quando empresa tem direito? Quem tem direitos constitucionais são pessoas não?) de defender seus interesses por meio de doações de campanha, trago os seguintes dados:
“Atualmente, (as micro e pequenas empresas) são responsáveis por 84% da geração de empregos. Enquanto isso, as médias e grandes empresas ocupam 16%.”[1]. Porém, elas representam 27% do PIB, 52% dos empregos com carteira assinada e 40% dos salários pagos[2]. No Brasil elas representam 99% das empresas[3].
Ou seja, do ponto de vista de capital elas possuem um terço das média e grandes empresas, mas elas são 99% das empresas e empregam mais pessoas. Mas seu poder de influência é extremamente menor que das grandes empresas. Ao permitir o jogo empresarial sem considerar essas proporções, estamos favorecendo que uma parcela extremamente pequena seja privilegiada no jogo de poder da política, mesmo essa parcela não tendo representatividade em termos de pessoas empregadas e população. Estamos permitindo uma enorme distorção da representação que o parlamento deveria ‘reproduzir’ – que, no meu ponto de vista, é a representação da população, e isso não quer dizer que deva ser uma representação censitária;

Mas no fundo no fundo, eu acho que o mais importante de tudo é debatermos como podemos tornar as Instituições (seja legislativo, executivo e também judiciário) mais permissivas e transparentes, com mais espaço para participação, atuação e influência da população, de uma forma direta. Não estou falando aqui de propostas de “democracia líquida”, mas sim que precisamos de mais mecanismos de participação e controle social, direto e distribuído, sobre as instituições representativas. E, com isso, também é fundamental a participação fora dos períodos eleitorais. Resumir nossa participação política ao voto é o maior dos erros. (Nossa, eu dei uma pausa no podcast bem no finalzinho, antes da última fala da Cris, para escrever esse comentário. Logo depois de terminar esse parágrafo eu dei play novamente e o comentário da Cris foi exatamente esse, não podemos nos resumir ao voto…. ótimo!)

E agora só jogando um ponto que ainda não apareceu na discussão mas que acho importante de ser pensado no contexto de representatividade e parlamento, acho que precisamos discutir com seriedade a regulamentação do Lobby. Porque isso é algo que ocorre sempre, mas que sem uma regulamentação acaba por favorecer quem já tem mais força (econômica). Inclusive é aqui que a doação de campanha das grandes empresas realmente aparece, porque são estes lobistas que fazem pressão naqueles que receberam “doações”.

p.s: Só um relato pessoal sobre como é relevante entender “as regras do jogo” das eleições. Nas duas últimas eleições para Dep. Fed. eu havia votado no Ivan Valente, e fiquei feliz com o trabalho que ele fez. Nesta última eleição eu doei para a campanha dele mas não votei nele. Votei num outro candidato do partido, mas com menor expressão. Mas fiz isso sabendo que, no fim das contas, pela regra do jogo, meu voto iria ajudá-lo a se eleger, e de quebra ainda pude dar meu apoio dentro do partido a uma pessoa diferente, ainda nova na disputa.

Nossa, acho que exagerei….. vai virar post no blog rs.

Linkando caso alguém queira continuar o debate futuramente em outro espaço com divergências temáticas:

http://

[1] http://radioagencianacional.ebc.com.br/economia/audio/2015-02/micro-e-pequenas-empresas-geram-84-dos-empregos-do-pais
[2] http://www.sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/ufs/mt/noticias/Micro-e-pequenas-empresas-geram-27%25-do-PIB-do-Brasil
[3] http://www.sebraesp.com.br/index.php/234-uncategorised/institucional/pesquisas-sobre-micro-e-pequenas-empresas-paulistas/micro-e-pequenas-empresas-em-numeros

 

Uma proposta para assinatura de documentos públicos aderente à LAI

PDF Fechado
PDF Fechado
PDF Não é Dado Aberto!

Você já tentou acessar algum documento público e deu de cara com um PDF?

E quando esse PDF é uma imagem escaneada/digitalizada de um documento impresso?

É péssimo não? Mesmo se o documento for “apenas” textual e não contiver tabelas – se houver tabela então a vontade de suicídio é quase imediata!

Qualquer pessoa com um pouquinho de envolvimento no debate sobre Dados Abertos, Lei de Acesso à Informação e Transparência sabe que PDF NÃO É DADO ABERTO, e que a sua utilização desenfreada é um grande entrave à evolução. Mas, mesmo assim, um dos casos mais comuns de utilização de PDF com imagens digitalizadas de documentos impressos é para documentos que precisam de assinatura.

Vou tomar aqui como exemplo um dos Substitutivos do Projeto de Lei do Marco Civil da Internet. Este documento contém uma rubrica em cada página (do relator? Sério que aquele rabisco vale alguma coisa? Ele é “infalsificável”?) e uma assinatura no final do documento (essa sim do relator). Essas assinaturas/rubricas servem como justificativa para que este tenha que ser o formato oficial.

Tirando o fato de a rubrica ser absolutamente rudimentos e insegura, acho que hoje em dia temos tecnologias suficientes para aumentar a segurança/fiabilidade desses documentos, agilizar o processo de assinaturas de documentos que exijam a assinatura de diversas pessoas e também permitir que estes documentos possam ser distribuídos em formatos que permitam sua leitura por máquina (de acordo com a Lei de Acesso).

Uma dessas tecnologias possíveis é a utilização de mesas digitalizadoras e/ou “tablets” e/ou notebooks com telas sensíveis a toque para que esses documentos possam ser assinados “digitalmente” com as assinaturas “comuns” de quem deve assiná-lo. Assim, todo o resto do documento continua permitindo buscas no próprio documento (usando o “find” dos leitores de pdf).

Mas essa não é a melhor solução ainda, porque PDF não é dado aberto. Temos soluções melhores até do que essa digitalização, que é a utilização de certificados digitais (p.ex. o e-cpf) para Assinaturas Digitais de documentos. Muitos tribunais de justiça já utilizam essa tecnologia de assinatura eletrônica usando certificado digital – mas continuam distribuindo apenas PDFs assinados digitalmente.

Fico imaginando o quão ridiculamente simples é um ambiente no qual os parlamentares podem assinar (remota e simultaneamente) um determinado projeto de lei, e que este mesmo ambiente permita que qualquer pessoa baixe o texto do projeto em formato TXT (ou XML ou JSON, ambos para exportar metadados junto do texto integral) e também baixe o PDF assinado digitalmente com o texto na íntegra (para imprimir ou para algum tipo de distribuição). Claro que o PDF sempre deveria vir com um link para o texto original para fins de verificação.

Isso agilizaria infinitamente os processos todos, seria mais sustentável (menos papel), mais organizado, mais barato, mais público, mais transparente, enfim, só traria ganhos para todos os lados. Precisamos urgentemente dessas soluções.

E claro, esse ambiente deveria considerar a utilização de sistemas de versionamento do texto, assim os parlamentares assinariam uma determinada versão do documento e, eventualmente, um ou outro “patch”, e nós poderíamos pegar apenas os “diffs” caso fosse interesse, ou saber quem apoia qual mudança no texto.

Dia das mulheres, para mulheres, sobre mulheres por mulheres

National Womens Day
National Womens Day

Não é de hoje que eu estou envolvido em debates, reflexões e ações acerca da temática da mulher em nossa sociedade. Seus desafios, os preconceitos, o tratamento desigual, a violência – seja ela física ou psicológica.

Mas acho que eu nunca havia vivido um dia tão intenso quanto foi este 8 de março de 2014.

A começar que sempre fico confuso se considero 8 de março um dia de homenagem (seja lá a quem for), um dia de reflexão, um dia de lutas, enfim, não sei bem como definir este dia. E por isso mesmo sempre fico me perguntando: “Dou parabéns às mulheres hoje?”. Como é meu costume, não sou uma pessoa de sair dando parabéns, em geral prefiro dedicar minha presença e atenção a um “simples parabéns”, e ontem acabei trazendo essa característica à tona. Não dei um “feliz dia da mulher”, mas dediquei meu dia todo “a elas” (ou vocês).

Eu e a Haydée decidimos por participar das atividades da Casa de Lua (para saber mais visite o site – e eu recomendo a visita ao site e à casa!).

Lugar de mulher é na Política
Lugar de mulher é na Política

As atividades começaram com um debate sobre Mulheres e Política, com apresentações da Juliana Cardoso (vereadora em SP pelo PT) e sua mãe, a batalhadora Ana Maria Cardoso, da Haydée Svab (PoliGen/Casa de lua) e da Georgia Nicolau (Diretora da Secretaria de Economia Criativa do Ministério da Cultura). O debate foi muito inspirador, cada uma à sua maneira construindo a Política e o País, sempre muito apegadas à construção coletiva, ao respeito ao próximo e sempre levando a temática da mulher – seja em projetos ou simplesmente na forma de ser, agir e construir. Foi muito enriquecedor, e tenho certeza que se houvesse tempo passaríamos ainda muitas e muitas horas naquela conversa. Eu e certamente muitas outras pessoas presentes ficaram com vontade de fazer várias perguntas e provocações.

Respeito ao parto é respeito à mulher
Respeito ao parto é respeito à mulher

Um pouco atrelado a este debate também acabamos agregando uma outra mesa que estava rolando em paralelo, que era sobre “Violência obstétrica e os direitos das mulheres no cenário do parto e do nascimento“, com a doula Marcelly Ribeiro e a advogada Ana Lucia Keunecke. Nunca havia participado de qualquer debate sobre esta temática, apesar de já ter ouvido falar, bem por cima, sobre parto humanizado. Fiquei chocado com muitas das coisas que ouvi, e acho que este é um tema que precisa ainda de muita exposição. O grau de intervencionismo da medicina atual e o desrespeito à individualidade, à pessoalidade e até à humanidade das mulheres chega a assustar. Isso sem falar no quanto a medicina ocidental atual trabalha para desacreditar na capacidade natural do corpo, sempre utilizando um discurso “do medo” para forçar a intervenção médica (seja com medicamentos, suplementos ou cirurgias). A influência do dinheiro da indústria farmacêutica e de alimentos também impressiona, o uso indiscriminado do “Leite NAN” (da Nestlè, uma das maiores patrocinadoras da área pediátrica) é completamente desmedido. Desta conversa fica a sugestão para o filme/documentário “O Renascimento do Parto”, que a Casa de Lua vai exibir em breve, e pretendemos exibir também no “Cineclube Hacker“, além da reflexão de que a humanidade chegou até aqui sem todo esse intervencionismo, minha avó paterna deu a luz a 10 crianças e minha avó materna a mais 6, tudo sem os “super recursos” como leite NAN, Cesariana, episiotomia e “ponto do marido” (fiquei muito chocado com isso!), e por ai vai.

Depois dessa conversa fiquei para o debate sobre “Trote machista e feminismo na Universidade“, com as meninas dos coletivos Frente Feminista Casperiana Lisandra, Coletivo Chute da ESPM, Coletivo 3 Rosas, da PUC, Frente Feminista da ECA-USP, Frente Perspectiva, do Mackenzie e eu, que participo do PoliGen. É quase difícil acreditar no grau de violência nas atividades das universidades (públicas e privadas) aqui na cidade de São Paulo, não só por estudantes (homens e mulheres), mas também por parte de alguns docentes – alguns ativamente discriminando e violentando as meninas, outros por omissão. Isso sem falar na omissão das instituições, que deveriam ter como seu principal objetivo educar e formar cidadãos e cidadãs, indo muito além de uma formação técnica conteudista.
Na Poli esse tipo de violência contra mulheres é absolutamente comum, dentro e fora de aula, advinda de estudantes e professores, com comentários jocosos, desmerecedores, piadas sexistas, além dos eventos super opressivos [1] e [2]. E sempre tivemos a impressão de que pelo fato de a maioria dos estudantes e docentes serem homens isso tudo era agravado. Ontem, ouvindo as meninas comentarem de seus cursos e faculdades nas quais as mulheres são maioria, pude perceber que o problema é muito maior, que existe de fato uma “cultura universitária” de opressão, calcada na imposta e desumanizante hierarquia “bixo – veterano”. Mas também pude perceber o quanto a maioria masculina de meu curso gera situações limítrofes de violência física (como a prova da metralhadora de elástico [2]).

Veterano não é dono de caloura
Veterano não é dono de caloura

E de comum em todos os cursos e universidades está o descaso das instituições para com a temática, só havendo uma mínima e performática movimentação institucional quando os acontecimentos chegam à imprensa e a instituições como o Ministério Público (que, diga-se de passagem, só atuou no caso da Cásper desse ano).
Não posso deixar de relatar ainda que fiquei quase deprimido ao ouvir que numa festa da Faculdade Getúlio Vargas uma aluna – alcoolizada – foi violentada (masturbada) publicamente em cima do palco do evento (que não lembro qual era).
Mas ao mesmo tempo fiquei muito feliz em ouvir que nas faculdades e universidades do Nordeste não existe essa cultura de trote e violência – não que não ocorram problemas, mas nada nos níveis que vemos por aqui, pelo que foi dito.
Dentro ainda deste debate acho que vale destacar que o Poligen é um dos grupos com mais tempo de existência. Não sei o quão isso é bom ou ruim, mas acho que é algo relevante de se refletir sobre.
Por fim, a Bianca Santana (professora da Cásper e moderadora da mesa pela Casa de Lua) fez algumas provocações muito relevantes: “O fato dos grupos causarem incômodo ‘geral’ é bom ou ruim?”; “Existe uma grande cisão entre quem participa dos coletivos e quem não participa, como fazer para criar pontes entre esses dois lados tão distantes?”. Teve uma outra mas não me recordo agora qual foi. E eu adicionei mais uma provocação. Devemos sempre tomar muito cuidado para não tratar a todas as pessoas como inimigas, nem tratar a todas as pessoas como “machistas convictas” – como alguns são de fato – nesse sentido, a quem deve ser direcionado o esforço e a atenção? Aos “extremistas” da cultura da opressão ou às pessoas que simplesmente estão tentando “fazer parte do grupo social”, mesmo que de forma inconsciente?

Depois tivemos uma conversa mais curta com a pesquisadora Maria Lucia da Silveira, que contou um pouco sobre a história do 8 de março, quebrou alguns mitos (como o das trabalhadoras queimadas numa fábrica em 1857) e falou um pouco sobre como o movimento feminista tiveram origem em diversos lugares, mas o mais forte deles foi na Rússia. Vale ler o artigo na Wikipédia.

Por fim rolou a conversa “Cuidados autonômos dos nossos corpos, poder médico e a indústria da doença“, com a Bianca Santana, a Bruna Silveira e a Joana Duah. E essa foi a atividade que mais me tocou e me fez refletir de todo o dia. Muito se falou sobre as violências médicas, principalmente contras as mulheres, a cultura do medo da medicina, a culpabilização da mãe, a medicina focada na doença ao invés de olhar para a saúde e para o paciente como um todo. Foi uma conversa muito intensa, e acho que duas coisas me tocaram muito forte. A primeira delas foi um link que fiz entre as diversas atividades, que é a questão da linguagem, me lembrando de uma frase do Nelson Mandela:

“If you talk to a man in a language he understands, that goes to his head.

If you talk to him in his own language, that goes to his heart.”

Em cima disso, fiquei pensando o quanto precisamos, por um lado, aprender e sempre tentar falar numa língua que as pessoas entendam, e isso não quer dizer idioma, mas de fato conversar com as pessoas levando em consideração a realidade delas. Por outro lado, trazendo da primeira conversa, precisamos também nos apropriar do discurso daqueles com quem temos que lidar, sejam eles burocratas, médicos, políticos, técnicos, etc. Dessa forma conseguimos sobrepujar o discurso de autoridade e debater o que de fato importa.

Autonomia
Autonomia

E a segunda coisa que mais me tocou nesta última conversa, foi o quanto as mulheres estão anos luz à frente dos homens quando o assunto é saúde, cuidado, se conhecer e se respeitar. Enquanto as mulheres estão debatendo sobre como se conhecer melhor para o autocuidado e para não precisar tanto da “medicina da doença” e se defender de abusos médicos, nós homens sequer falamos sobre nossa saúde e sobre cuidar e conhecer nossos corpos. Temos muito ainda o que caminhar, e acho que talvez essa seja uma grande lição deste dia 8. Se nós, homens, pararmos para observar mais as mulheres, talvez passemos a nos cuidar melhor e também a respeitá-las muito mais.

Mulheres da casa de lua e as que lá estiveram ontem, obrigado pelo dia maravilhoso de ontem, e por todos os outros dias. Mulheres da Casa de Lua, vocês são um grande exemplo e inspiração que vocês sempre são.

E deixo aqui também a minha lembrança às duas mulheres fundamentais em minha vida, minha mãe e minha companheira Haydée. Vocês são meu suporte e minha inspiração!

[1] Nota do Grupo de Estudo de Gênero do PoliGNU sobre a “Barraca do Tapa” da Festa Junina da Poli

[2] Um tapa na cara da igualdade

Reflexões sobre a RodAda Hacker

Lá vamos nós para mais uma RodAda Hacker (RH)!

rodada

Aos que não conhecem, sugiro olhar no site (link acima) e conhecer melhor, mas, resumidamente, a RodAda Hacker, do meu ponto de vista, é um espaço para hackear nosso modelo de sociedade (e tudo que nele está incluso!) para construir uma sociedade mais igualitária e justa. E na rodAda fazemos isso por meio do aprendizado colaborativo e coletivo de ferramentas de programação, focando principalmente em meninas e mulheres, para dar-lhes autonomia e termos mais mulheres no mundo da tecnologia e transformação social.

A RH não é simplesmente uma “oficina de programação”, ou um “curso de programação”. Se isso fosse, não seria um espaço de transformação social, seria simplesmente mais um espaço de formação de mão de obra, que iria incluir no mercado de trabalho mais mulheres com “tech skills“, e estas possivelmente ganhando menos do que homens para realizar a mesma função, reforçando assim os preconceitos e determinismos existentes hoje. Por isso eu defendo a RH enquanto um espaço de transformação social, de mudança de paradigma, no qual a tecnologia é apenas uma ferramenta e um meio, nada mais do que isso. E, pensando assim, acho que tudo que envolve a RH deve ser pensado, refletido e articulado pública e coletivamente, porque pensar e refletir sozinho(a) não leva a reflexão a outras pessoas e outros patamares.

Eu fui à primeira RH, e foi algo simplesmente maravilhoso. Estou devendo um post sobre como foi, e o farei (enquanto isso leiam o post do Capi). Serei tutor novamente, e é da construção desta RH que quero falar, partindo dos conceitos que passei acima.

Construindo a segunda RodAda

Percebam que eu disse que quero falar da construção desta segunda RH de SP, e não da organização dela. A Daniela Silva, idealizadora da rodAda, decidiu expor a todas as pessoas envolvidas (tutoras, tutores e inscritas) uma questão que foi levantada por boa parte das interessadas que se inscreveram, que é a demanda das mulheres por cuidar de suas filhas e seus filhos, e tentar chegar a uma solução coletivamente, ouvindo todas as pessoas envolvidas.

Eu achei sensacional a atitude da Dani, porque é assim que o processo de transformação tem que ocorrer, de forma coletiva, com todas as pessoas pensando e refletindo sobre ele, sabendo das dificuldades, próprias e das outras pessoas, e ajudando a construir uma solução que contemple todas as necessidades na medida do possível, aprendendo a reconhecer as dificuldades e ceder um pouquinho para poder contemplar mais pessoas, cada uma com suas limitações e dificuldades, mudando nosso paradigma de “eu” para “nós“.

Algumas consequências surgiram desta iniciativa, eu pensei muitas coisas que vou compartilhar abaixo.

Algumas questões, tudo junto, misturado, mas separado.

Do Eu e do Nós, o coletivo e o diálogo

Infelizmente nós vivemos na sociedade do Eu, na qual as nossas necessidades individuais e de curto prazo estão sempre à frente, de forma exclusiva, às necessidades do Nós. As pessoas (aglomerado de Eus) tem muita dificuldade de entender que a força do coletivo (Nós) é sempre maior que a força do aglomerado. Um pouquinho disso pode ser visto e sentido recentemente nas passeatas e manifestações que ocorreram em São Paulo, e ainda ocorrem pelo país. Enquanto éramos milhares em nossos sofás reclamando, e reclamando aos vizinhos nos elevadores, nada mudava. Mas quando nos transformamos a indignação em algo coletivo e público, algumas coisas começaram a mudar. E digo começaram, porque ainda tem muito o que ser feito, e precisamos continuar como Nós para que mais mudanças ocorram, e mudanças de longo prazo. (Tenho milhares de críticas e discordâncias com muita coisa que aconteceu, mas não vem ao caso).

Nesse contexto, algumas das pessoas inscritas na rodAda, e interessadas em aprender a tecnologia (justíssimo!), se posicionaram de forma rígida e absoluta contra a presença de crianças no espaço, ou próximo a ele, pois estas iriam atrapalhar o “objetivo da atividade” – aprender a programar para usar isso profissionalmente.

É importante refletir que (quase) ninguém aprende um novo conhecimento, de uma área que não domina, em um dia e sai usando isso no mercado. Acho um pouco de ilusão pensar assim, e a RH não me parece caminhar nesse sentido. O objetivo deve ser dar os primeiros passos e, principalmente, aprender a ter autonomia. As comunidades hackers e de software livre são totalmente necessárias do senso de coletivo, porque é no coletivo que buscamos apoio, ajuda, respaldo, e é nele que se sustenta a força dessas comunidades. E pensar a RH é pensar na formação de um coletivo de mulheres (e homens também, porque não), que vão oferecer apoio e suporte, técnico e não técnico, para todos e todas. Se começamos já nos posicionando de forma individualista, sem diálogo, excluindo algumas pessoas com necessidades e demandas diferentes das nossas, essa formação de comunidade fica comprometida, e o grande benefício fica de lado. O aprendizado técnico de um dia pode não ser suficiente e se perder rapidamente (e tende a ser assim), mas uma comunidade não se perde dessa forma e contribui para a solução dos problemas técnicos.

Por isso acho absolutamente fundamental a busca coletiva por soluções que satisfaçam as necessidades de todas as pessoas envolvidas, o olhar para o próximo, o diálogo e a capacidade de entender que nem sempre todas as nossas condições podem ser satisfeitas.

Isso, claro, vale para os dois lados. As duas necessidades postas são importantes e justas, tanto a de aprender a técnica quanto a de ter uma criança que precisa de cuidados (desde bebês até crianças mais velhas) – e porque não, como bem foi pontuado, idosos e idosas que também podem ser dependentes de cuidados mais próximos!

Eu serei um tutor, e vou ajudar ao máximo todas as pessoas presentes, sem distinções, e gostaria muito que todo mundo que se interessou na RH participe e se abra para a construção coletiva. Mas se alguém tem uma necessidade muito urgente de aprendizado da técnica, talvez a RH não seja o melhor lugar e essa pessoa precise, também, de buscar uma escola de formação técnica.

Mães, filhos, pais, mulheres e homens

Uma outra questão que me chamou muito a atenção na discussão (e no meu email chegaram 35 de pelo menos 45 emails trocados), foi a questão de Gênero.

A começar que só mulheres respondera me trocaram emails, mesmo sabendo que muitos homens também acompanharam a troca de emails desde o começo. Quando eu olhei meu email e vi 35 mensagens, um debate caloroso, fervoroso e riquíssimo, e nenhuma mensagem de homem fiquei muito incomodado e decidi escrever – só que tinha tanta coisa para falar e refletir que preferi fazer esse post de blog, que compartilharei com todo mundo na thread.

O segundo ponto a destacar é a clara reflexão de que os homens não fazem parte efetivamente do cuidado e da criação dos filhos e filhas, e o quanto as mães não se sentem à vontade de forma natural para deixar as crianças com os pais e dedicarem um tempo para si próprias. Claro que existem casos e casos, mas ainda são exceções.

O terceiro ponto que notei, do ponto de vista de gênero, é que foi cogitado por muitas pessoas organizar um local aonde as mães poderiam deixar seus filhos, atrelado à contratação de alguém(ns) que pudesse(m) cuidar das crianças. E praticamente todos os comentários sobre contratação foram no sentido de contratar uma profissional, ou uma arte-educadora, ou a mãe de alguém, ou a amiga de alguém. Olha que loucura, mesmo num espaço de reflexão, no qual claramente há uma questão de gênero posta, e o ponto que destaquei no parágrafo anterior, o primeiro, e majoritário, pensamento é em convidar/contratar mulheres para cuidar das crianças, e não me lembro de ter visto questionamentos sobre isso (o fato de serem mulheres).

Claro que as mulheres possuem mais habilidades para cuidar de crianças, porque elas foram educadas socialmente para isso desde pequenas (#goBarbie!). Mas os homens também são capazes. Inclusive tenho certeza de que existem alguns que fazem isso profissionalmente, ou voluntariamente, e dariam conta do recado.

Para ser justo, acabei de lembrar que a Dani comentou que na primeira RH tínhamos uma mãe presente, a Bianca, com sua pequenita Cecília (ainda de colo), e que um dos tutores ajudou nos cuidados da mesma durante a atividade. Isso pode ter “atrapalhado” de algum forma o desempenho do ponto de vista do aprendizado técnico? Talvez sim, talvez não, mas certamente isso permitiu que a Bianca construísse algo concreto (), que talvez nunca tivesse sido pensado e saído do plano das ideias se a pequenita não pudesse participar de alguma forma. Aliás, recomendo fortemente a leitura do post da Bianca e a visita ao projeto que ela construiu. O post no blog deixa muito claro o quão importante é a Comunidade e o senso de Coletivo, e o quanto a técnica não é nada sem isso!

Mas voltando à questão, eu acho que seria extremamente transformador, por exemplo, construir um espaço nos quais homens ficassem responsáveis pelas crianças, sejam eles pais ou não das mesmas. Principalmente porque é importante entendermos que trazer as mulheres para o mundo da tecnologia e do mercado de trabalho é algo que tem que caminhar junto a trazer os homens para a responsabilidade conjunta da casa, e que “cuidar da família” não é colocar dinheiro em casa e decidir como ele será gasto. Assim como, por exemplo, é fundamental um debate sobre jornada de trabalho (eu quero 30 horas!) e outras afins. As coisas não são estanques, e precisam ser pensadas em conjunto. Quem sabe na próxima RH de SP (3a) não lançamos, em paralelo, uma Oficina Ser Pai (com P maiúsculo!)? #let’sHack.

Mas porque aqui e não lá, e o que eu tenho a ver com isso tudo?

Voltando à questão de porque eu não escrevi diretamente no emails e vim aqui para o blog, e fazendo uma autorreflexão e uma autocrítica.

Acho que foram três motivos que me levaram a escrever aqui e não nos emails.

O primeiro deles é que eu queria escrever bastante, mais do que eu acho que cabe num único email, e que isso poderia acabar matando a thread de alguma forma (emails muito grandes costumam matar threads).

O segundo deles é que eu acho importante documentar e compartilhar essas reflexões, por piores que elas sejam é melhor do que nenhuma reflexão né? E se ficasse só naqueles emails iria se perder no tempo e no espaço, dificilmente atingiria outras pessoas e poderia ser revisitado com o tempo (isso sem falar em indexação na web). Mesmo meu blog não sendo uma referência em número de visitas, muito pelo contrário rs.

E o terceiro ponto, e aqui vem a autocrítica, a autorreflexão e possivelmente o principal motivo, é que eu não me senti totalmente a vontade para escrever na thread.

Provavelmente, se eu tivesse visto a thread logo nos primeiros emails eu teria escrito e feito parte. Mas como só a vi com mais de 30 emails, um debate acalorado, e só mulheres participando, me senti de alguma forma intimidado. Acho que os papéis sociais postos, de homem e de mulher, poderiam fazer, de forma subconsciente, algumas das mulheres não se manifestarem após um homem opinar. Já vi isso ocorrer em outros espaços, presenciais e virtuais, sei o quanto, infelizmente, a presença de homens pode inibir. E não é algo racional e consciente, de nenhuma das partes.

Um outro pensamento que me passou pela cabeça sobre isso, e que eu acho que interferiu no meu julgamento, mas que eu refleti sobre e espero ter mudado um pouquinho para as próximas vezes, foi o “poxa, como que eu, um homem que não tem filhos, vai interferir nessa conversa?”. Racionalmente isso não faz o menor sentido, e depois de pensar um pouco sobre a minha “conclusão” é que eu tenho todo direito de opinar, mas sabendo que eu não vivo a realidade de Pai, de Mãe ou de Mulher, e que preciso olhar, entender e respeitar que essas são realidades diferentes das minhas.

Bem, por hora é isso que eu gostaria de compartilhar, sei que tem um monte de coisas que não lembrei, e muitas outras que podem ser abordadas, mas fica para um próximo post. 😉

Comentários e críticas são sempre bem vindos!

E bora hackear!

Cota Parlamentar, gastou muito?

Recentemente o Dep. Federal Jean Wyllys deu uma entrevista[1] (recomendadíssima!) ao jornalista Marcelo Tas, e um dos assuntos tratados foi o salário de Deputado. Muito buxixo foi gerado a partir de então, e o deputado decidiu escrever um artigo[2] sobre o assunto, deixando as coisas mais claras.

Este artigo foi parar na lista Transparência Hacker, da qual faço parte, e nela iniciou-se um debate sobre os gastos do Deputado com sua Cota Parlamentar. Decidi responder ao email, e coloco abaixo a minha resposta (que também está nos arquivos da lista[3]). Continue lendo “Cota Parlamentar, gastou muito?”

“Artistas x Universitários” ? – Breves comentários sobre a campanha “Tempestade em copo d’água”

“Artistas x Universidade” (http://scienceblogs.com.br/discutindoecologia/2011/11/usina-de-belo-monte-artistas-x-universidade/)….esse é o título do post que, aparentemente, primeiro divulgou da campanha “Tempestade em copo d’água” (http://www.youtube.com/watch?v=gVC_Y9drhGo).

Tive contato com ele alguns dias antes de “cair no facebook”, e fiz minhas considerações sobre o mesmo – afinal, acho que é isso que se espera de qualquer pessoa, fazer uma análise crítica das informações, seja do movimento dos “globais” ou dos “universitários”.

A começar que é partir de um princípio medíocre (no sentido de ser médio) se manifestar/mobilizar partindo da contraposição aos “artistas” quando o foco deveria ser o tema em si (Belo Monte). Mas… enfim… essa é a nossa sociedade, sempre personalista, sem discutindo o que não tem que ser o foco, sempre na superfície das coisas.

Recomendo entrarem no blog e participarem da discussão que está acontecendo por lá.

Segue abaixo meu comentário postado no blog referido:

Caros,

primeiramente gostaria de parabenizá-los por levantar esse debate.

Mas tenho algumas críticas ao vídeo.

Vocês comparam a área que será alagada com a área que é devastada diariamente hoje, e usam esse argumento praticamente para dizer que “a área alagada será insignificante”. Acho esse argumento péssimo. Não é porque temos um grande problema (devastamento para agroindústria) que problemas menores podem ser aceitos sem críticas/questionamentos.

Além disso, o impacto dos alagamentos não se dá apenas pelo tamanho da área a ser alagada, mas também pelo que há nessa região, e pelo impacto das áreas que deixaram de receber o fluxo do rio como é hoje.

Outro ponto é que vocês colocam que a usina será a 3a em potencial energético, mas na verdade ela será apenas 3a em potencial instalado. São coisas bem diferentes.

Seu aproveitamento médio será consideravelmente baixo e, mais do que isso, na época em que mais temos problemas de abastecimento energético no país ela pouco contribuirá, sua maior contribuição para o sistema integrado nacional se dará fundamentalmente nas épocas em que temos maior abundância de energia.

Considerando ainda que ela produzirá, em média, cerca de 4200Mw/h, existem sim alternativas viáveis à sua construção.

Estudos mostram que se utilizássemos o bagaço de cana que é descartado no Brasil para transformá-lo em energia, nosso potencial seria de aproximadamente 4200Mw/h. Ou seja, resíduos que descartamos hoje poderiam ser utilizados para gerar a mesma energia que Belo Monte irá gerar em média. E ainda ter-se-ia a vantagem de poder fazer essa instalação mais próxima dos centros consumidores (reduzindo perdas com transmissão) e seria mais fácil gerenciar em qual época do ano essa energia seria utilizada.

Enfim, esses são só alguns pontos que achei relevantes tocar.

Por fim, gostaria de sugrir a vocês, e pedir que ajudem-nos a divulgar, um debate que realizamos (nós = Escritório Piloto da Escola Politécnica da USP) sobre Belo Monte com dois professores da EPUSP e mais o Prof. Célio Bermann, do IEE-USP, um dos responsáveis pela produção de um relatório de análise crítica do projeto da usina e do EIA/RIMA da mesma.

http://escritoriopiloto.org/artigo/debate-belo-monte

Neste link vocês encontraram as apresentações feitas e também os vídeos do debate. Sei que são razoavelmente longos, mas vale MUITO à pena assisti-los, tem muita informação técnica concreta (diferente do “movimento gota d´água)….

Abraços universitários!

O caminho da educação no Brasil

Todos pela educação?

Há algum tempo atrás recebi, por email, a seguinte notícia:

Comissão do Senado retira do MEC responsabilidade pelo ensino superior

Sobre ela, um colega escreveu que “Se o Ministério da Educação fizer a parte dele sem a atribuição do ensino superior,  pra mim ta ótimo.“, e a resposta que dei a ele foi

“Eu discordo de você.
Primeiro porque eu acho que o papel educacional das Universidades é fundamental, e retirá-las do MEC só tende a piorar a situação da educação de nível superior.
Em segundo lugar porque acho difícil pensar numa solução para a educação do Brasil sem que as Universidades façam parte deste processo.
Mudar as atribuições e responsabilidades da “entidade” (ministério) para que ela consiga cumpri-las é, no mínimo, imbecilidade.

Meu colega colocou que, na opinião dele,  “a melhoria da educação no Brasil ainda não precisaria envolver o ensino superior” e que após dar aulas para “adultos e adolescentes que estudaram em um colégio público em um cursinho voluntário“,  ele chegou à conclusão que “o problema não está na minha matéria (álgebra). Está no fato de que, desde quando começaram a frequentar a escola, eles não desenvolveram competencias básicas que são ensinadas para a maioria dos alunos do ensino superior.” Ao questionar a professora particular de inglês dele, que também dá aulas na rede pública, sobre o tema, ela respondeu que “Os alunos de lá não tem o menor interesse, pois sabem que eles vão passar mesmo que não façam nada. Para completar, eles ainda atrapalham muito aqueles que tem interesse, e não posso tomar nenhuma atitude disciplinar contra eles

Este meu colega ainda concluiu:
Concordo com você que, se tudo fosse rosas, deveria se do jeito que você disse, mas não adianta tentar fazer tudo bonitinho se não funciona. Não sei que tipo de implicações políticas essa medida vai ter mas, se for preciso criar o Ministério da Primeira Série do Fundamental ou o Ministério da Interpretação de Texto para que minha professora consiga ensinar seus alunos e, consequentemente, o aproveitamento dos meus aumente, pra mim ta ótimo.

E aqui vem o que me motivou a escrever este post… minha resposta a este último email dele. Vou copiá-la na integra abaixo:

“já dei aulas em cursinhos populares pré-universitários (que são diferentes de pré-vestibulares – mas não vou me alongar nisso) e realmente existe uma enorme falta de bases matemáticas, muito anteriores a “equações de segundo grau”.
Mas não acho que a criação de novos ministérios, especialização de ministérios ou qualquer coisa do gênero seja algo que vá resolver a situação. Enquanto um professor de ensino público (em qualquer nível) não receber uma salário razoável, não vamos ter mudanças de verdade.

Claro que a “aprovação automática” é um absurdo e que deveria acabar ontem. Mas, mesmo antes dela, tínhamos problemas. E isso passa pelo fato de um professor da rede pública ter que dar aula em 3 escolas em locais distantes umas das outras, ganhando muito pouco e, por exemplo, não sendo remunerado por tempo com preparação de aulas e provas, correção de provas e exercícios e por ai vai.
Certamente os professores deveriam ser remunerado por, pelo menos, o dobro do horário de aulas que eles dão. E estou sendo bonzinho com o “pelo menos”. Numa turma de 50 alunos que eu tinha e que eu passei uma atividade (SIMPLES!) dissertativa, gastei um fim de semana todo só pra corrigir. Isso sem considerar o tempo de preparar a prova.
Por isso sou totalmente favorável à campanha “10% do PIB para Educação” (campanha encabeçada pelo psol no legislativo). Eu acho que esse aumento é um primeiro passo muito mais efetivo do que a criação de qualquer “ministério”.
E o mesmo vale para as Universidade Públicas. Se não garantirmos que um docente pode ganhar um salário razoável (em função de seu conhecimento, sua capacidade de produção e etc), e que sua atuação enquanto docente (e não pesquisador) é algo de suma importância e isso ser levado em consideração (hoje não é), nosso ensino superior continuará sendo de terceiro mundo, e rankings que colocam a USP como “melhor da AL” são muitíssimos vazios.
Se os professores do ensino público fundamental/médio fossem recebessem o tratamento que recebem os docentes universitários já seria um grande avanço….
Existem várias outras coisas a se levar em consideração como, por exemplo, a quantidade de estudantes numa sala de aula com relação ao número de “educadores” (profess@r + assistente(s)).
Por fim, há só mais uma questão relativa à mudança proposta. E os cursos não são tecnológicos/mercadológicos? O que vão fazer dentro do Ministério da Ciência e Tecnologia? Ensino Superior se resume apenas a produção tecnológica? Como ficam os cursos de Pedagogia, História, Matemática, Física, etc? O MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação) é que vai legislar sobre como devem ser os professores de Ensino Médio/Fundamental?…….

E vocês, o que acham?

“Criança, a Alma do Negócio”

Primeira coisa….. “Mexem com a cabecinha deles, porque é bem imatura né, a criança é vulnerável, ela vai ver ela vai querer”….
Como se os “jovens” e “adultos” não fossem também. Como se as milhares propagandas que nos bombardeiam minuto a minuto não nos influenciassem. Ou será que nós compramos uma Coca-Cola porque ela realmente tem “bolhinhas refrescantes que matam a sede instantâneamente”? Como diria meu professor, João Furtado, se algum dia alguém descobrir uma Coca-Cola que tem aquelas bolhas ultra-refrescantes do lado de fora, por favor, me avise que eu vou comprar na hora!

Aliás, as crianças realmente são muito mais expostas às propagandas do que os adultos, mas os adultos são MUITO influenciados pelos comerciais… isso quer dizer que os adultos são mais “fracos” (ou tão quanto) as crianças?? Principalmente se pensarmos que uma boa parte das propagandas reforça que os pais devem satisfazer as vontades das crianças, devem fazê-las felizes comprando o que elas pedem. E ai os pais acabam reforçando a lógica sobre as crianças… ou estou errado??

“O desejo de comprar passa a ser a coisa em si”.
Será que é só com as crianças que existe essa inversão entre “fins” e “meios”? Ou será que a maioria das pessoas trabalha para ganhar dinheiro?
Será que as pessoas vão à livraria pois querem ler um livro ou pois querem comprar um livro?
Qual é o fim para os adultos? O objeto comprado ou o ato de comprar?

Será que existe alguma semelhança entre a criança que pede um brinquedo e brinca apenas uma vez com ele, e a mãe ou o pai que compra um vestido (ou outra roupa) mas só o utiliza uma vez?

Aliás, só relatando, tenho uma tia que fez luzes no cabelos dos filhos com menos de 3 anos… um deles ainda era de colo…..

Complicado ver uma mãe falando que as propagandas não condizem com o que deveria ser relativo ao mundo de crianças, mas mesmo assim elas dão às crianças os produtos dessas propagandas. Mas ela não conseguem ver a relação entre essas coisas. Muitas vezes os pais não conseguem ver que as meninas não usariam roupas “que realçam suas características” se os pais não comprassem.
Aliás, a maioria dos exemplos “clássicos”[esteriotipados] são relacionados às crianças do sexo feminino…

Bem, estão ai algumas reflexões que me ocorreram durante o documentário.

Acho que vale à pena todo mundo assistir e refletir!

Temos que pensar por todos os lados.
Enquanto alvo diretos das propagandas, enquanto pais, ao dar algo a nossos filhos, enquanto profissionais, ao trabalharmos na criação de um propaganda ou na venda/produção de um produto. Acho que falta reflexão vinda de todos os lados. E do lado dos profissionais eu ainda apelo à Ética!

Bem… fica a sugestão de leitura!

Abs,

Diego

Dia Internacional da Mulher

Até ano passado (eu acho), não concordava muito com a idéia de um “Dia Internacional da Mulher”. Achava, de alguma maneira, uma certa discriminação para com as Mulheres.
Mas a vivência, o convívio, o debate, o erros e a reflexão nos mudam muito, e felizmente eu tenho alguém do meu lado há quase 1 ano e meio que me faz passar por todas essas experiências e olhar pra elas de forma consciente.

Percebi neste último ano de reflexão que tenho muito a aprender sobre a sociedade e, principalmente, sobre eu mesmo.

Percebi que o Dia Internacional da Mulher não é um dia de homenagem, um dia de festa. Mas sim um dia de reflexão: para pararmos e refletirmos sobre como estamos nos relacionando com o outro gênero; um dia de luta: para tentar deixar de lado vícios sociais que estão em nós introjetados; um dia de repensar os valores e buscar um pouco mais o caminho da igualdade, do respeito e da ética.

Quero aqui deixar as minhas mais sinceras desculpas a todas as mulheres que tratei de forma injusta, que subjulguei em algum momento, que não respeitei como merecia ser respeitada, que não olhei como mereceia ser olhada.

Peço aqui a todas vocês que, sempre que se sentirem pressionadas, por uma questão de gênero, que se manifestem! Que se indignem, e que esta indignação se transforme numa ação transformadora. Não sejam pacíficas. Utilizem o poder da palavra para combater a injustiça que existe no mundo.

Quero deixar aqui expresso o meu mais profundo agradecimento a você , Haydée, que tanto tem mudado a minha vida, com muito Amor, apoio, críticas, carinho, compreensão. Que tem feito cada dia da minha vida um dia único e especial, sempre cheio de novidades, cada dia mais maravilhoso que o dia anterior. Que está sempre ao meu lado, me ajudando a conquistar meus sonhos e me incentivando a ter novos sonhos.

Expresso também meu sentimento de admiração por todas mulheres que lutam para mudar essa realidade nefasta em que vivemos, por todas vocês que tomam decisões, mesmo que contrariando parentes, líderes religiosos, amigos, etc. Que vocês continuem sendo um exemplo, não só para as mulheres, mas também para todas as cidadãs e cidadãos, para que todos parem e reflitam sobre o Agir para mudar o que entendemos estar errado.
Que todos lutemos por um mundo mais digno, no qual uma pessoa não é considerada melhor pela cor de sua pele, de seu cabelo, pelo carro em que anda, pela casa em que mora, pelo gênero, ou pelo diploma que possui. Somos todos seres humanos, todos com defeitos e virtudes. Todos têm seu direito de ter opinião, e de serem respeitados igualmente, independente do que pensam.

Que este seja só mais um dia de uma dura luta em busca de um mundo mais justo.

Não parem de lutar para transformar!

Dée, Te Amo! Muito! Minha amada guerreira, justa e bondosa.